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Um jogo para todos os 365 dias governar

13 February on Blog, Editoriais  

2012 chegou ao fim e novamente somos atolados por uma avalanche de premiações de games. Eu já falei bastante sobre meu desgosto em relação ao excesso de gasto em marketing, e não é exagero dizer que algumas dessas premiações caem exatamente nessa categoria - o Video Game Awards (VGA) é o primeiro que deve aparecer nas cabeças de todos. Eu sinceramente sinto vergonha alheia de assistir ao que é basicamente uma homenagem aos publicitários da área de videogames, com uma renca de celebridades recebendo cachês gordos para "legitimizar" os videogames como uma indústria de respeito. Não que eu seja contra qualquer política de trazer respeito para uma indústria jovem que ainda tem dificuldade de ser levada à sério... mas eu não consegui assistir o programa inteiro de tantos calafrios decorrentes da insinceridade. Os VGAs são um espetáculo grotesco da perdição de uma indústria com mais dinheiro do que interesse em evoluir a mídia – a maldição herdada de Hollywood.

Geoff cercado de patrocinadores que viraram sinônimo da indústria de games

Minha insatisfação com esse comportamento veio à tona com a recente premiação de dois jogos que dividiram as honras de Jogo do Ano de diversas publicações e premiações: The Walking Dead e Journey. Ambos são títulos excelentes que eu recomendei para muitas pessoas, tentam escapar dos padrões da indústria de uma “fórmula de sucesso”... mas talvez o mais importante é que são jogos feitos por pequenos estúdios, um deles independente, o outro recebe suporte da Sony, mas é visto pelo grande público como “indie”. Em teoria, isso deveria ser um bom sinal, não? Mas meu medo é que a motivação disso seja muito mais sinistra: um golpe arquitetado para tentar trazer um pouco de credibilidade no fim de um ano triste para a indústria... o ano do “Doritosgate”.

Eu não gosto de casos emblemáticos que abusam de ícones que parecem tirados de uma campanha de marketing, mas o caso de Rab Florence ilustrado pela imagem de Geoff Keighley capturou bem demais e virou um exemplo forte do que está acontecendo com o jornalismo de games. Eu já vivi na pele ser sujeito ao estrelismo de alguns jornalistas norte-americanos, tratados como celebridades pelas equipes de relações públicas dos distribuidores de games. Meu problema nem é tanto o conluio entre essas duas partes (confiança entre os dois é importante), mas a vontade mútua de agradar um ao outro compromete não apenas a objetividade, mas acaba resultando em um certo mimetismo bizarro: os jornalistas começam a escrever e pensar cada vez mais como publicitários, empolgados com adjetivos hiperbólicos e pouca vontade de criticar. Curiosamente, as principais críticas dos jornalistas de grandes veículos foram contra o consumidor, rotulando eles de mimados por conta da insatisfação com Mass Effect 3 e o reboot de Devil May Cry com DmC.

The Walking Dead, da Telltale, empresta o visual da HQ ao invés da série de TV

E assim eu chego de volta às premiação, mas especificamente com “Jogo do Ano”. Em um ano que foi marcado por críticas contra a imprensa dedicada aos games, é curioso que vários veículos de peso premiaram The Walking Dead, incluindo Spike e OXM, entre os mais de 80 prêmios recebidos, e os mais tradicionais como IGN e Gamespot premiaram Journey. Olhando os jogos que receberam o mesmo prêmios nos jogos anteriores encontramos uma lista composta quase exclusivamente por títulos de grandes distribuidoras que seguem fórmulas de sucesso – e com verbas de marketing enormes (e muitas vezes maiores que o custo de desenvolvimento dos mesmos). Me chame de ranzinza, me chame de paranoico, mas eu realmente acredito que esses prêmios foram pouco mais do que uma oferenda de paz para provar que eles são imparciais. Eu certamente aprecio Journey como um jogo que prova que videogames podem ser arte... mas o problema é que claramente não existe um padrão claro de seleção para Jogo do Ano.

Dessa forma, chego ao meu ponto: premiar um único produto como “Jogo do Ano” não faz sentido. Não é coincidência que os Golden Globes da TV americana são divididos entre Drama e Comédia. Os parâmetros para se comparar certos jogos é quase impossível: como comparar Journey contra XCOM contra Super Mario 3D Land? Todos eles são excelentes em seus respectivos gêneros, e é até possível defender Journey pela criatividade e engajamento emocionais – mas se esse fosse o parâmetro, os jogos escolhidos pelas publicações nos anos anteriores jamais teriam ganho o prêmio. A única razão para a existência do prêmio de Jogo do Ano é para jogar uma migalha para as grandes distribuidoras, que certamente ficarão gratas.

A função da imprensa não é agradar aos distribuidores. A função dos distribuidores não é afagar o ego da imprensa. A função dos consumidores/leitores não é aceitar tudo que leem. Mas seria mais salutar se todos deixassem suas áreas de conforto e exigissem mais: a imprensa precisa ser mais ousada e criativa, os distribuidores precisam se preocupar menos com metascores e campanhas milionárias e mais com o futuro da mídia, e os consumidores/leitores precisam exigir ser tratados como adultos, e não ovelhas que mastigam todas as regras que lhes são repassadas.

E.T. e Pac-Man do Atari 2600 conseguiram derrubar a indústria quase sozinhos.

A indústria de videogames está passando por uma crise – uma crise que está sendo ignorada como a nudez do imperador, mas que pode ser tão grande quanto a que levou ao Crash da década de 80. Cada vez mais se investe em campanhas milionárias e consoles mais caros, mas o mercado está passando por uma bizarra adolescência em que não conhece sua própria identidade e não compreende a metamorfose pela qual passa. Os jogos sociais explodiram e implodiram com uma rapidez impressionante e o ecossistema dos jogos móveis parece bruxaria para todos. Mas ao invés de reavaliar os modelos, a solução mais empregada é arremessar mais dinheiro – algo que a Square Enix e a Capcom descobriram da forma difícil com Final Fantasy XIII e Resident Evil 6 nem sempre é a solução. E o mais engraçado é que a Nintendo mostrou como uma quebra de paradigma que é possível aumentar esse mercado – mas eles mesmos parecem ter esquecido o que conquistaram com o DS e o Wii ao fazer o Wii U.

O que eu mais quero é ver essa indústria amadurecer. Mas no momento o que eu vejo são tendências antiquadas que sobrevivem por conta de uma teimosa infantil – algo que vai de cima a baixo, dos distribuidores até os consumidores. Sem essas mudanças, eu realmente vejo o fim da indústria como algo real... e potencialmente imediato.

Esta postagem também está disponível em: Inglês

Author, freelance videogame journalist, cinematography major and a little insane.

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