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PlayStation Meeting 2013: o maior truque de prestidigitação da indústria

21 February on Blog, Editoriais  

Logo depois de saí do lançamento do meu livro ontem, voltei para casa e assisti o vídeo da conferência da Sony. Uma coisa eu posso garantir, eu fiquei muito surpreso por ver algo completamente diferente do que esperava da Sony. Eu comecei genuinamente empolgado, mas depois de pensar um pouco sobre o assunto, alguns detalhes me preocupam – foram deixadas várias lacunas... lacunas que parecem inocentes à primeira vista, mas isso porque a Sony espera que os jornalistas e consumidores preencham elas com a cabeça com “o de sempre”. E aí eu acho que está o truque.
Por enquanto, vamos fazer uma análise dos elementos da apresentação em si.

Ponto posivito: Mark Cerny

DualShock 4

DualShock 4

Os três PlayStation anteriores foram todos concebidos por Ken Kutaragi e Teiyu Goto. Nada contra eles, mas o caráter conceitual das plataformas anteriores foi motivo de dor de cabeça para muita gente. Eu acho que assistir a E3 anterior à revelação do PS3, quando Kutaragi passou minutos falando de computação distribuída explica bem o que estou dizendo. Da mesma forma, a dificuldade de programação dos dois consoles anteriores, somado ao fato da inclusão de última hora de silício dedicado à computação 3D é um sinal de como Kutaragi muitas vezes estava desconexo da realidade.
E assim entra Mark Cerny. Um nome que muita gente não conhece, mas uma das pessoas da indústria que eu mais respeito. E não estou sozinho. Se você for olhar não apenas os créditos dele, mas acredito que ele possa ser o profissional que mais aparece em créditos na seção “Special Thanks”. Mesmo sem ter a fama de um Miyamoto ou Molyneux, ele é uma força não celebrada na indústria e acho que a melhor pessoa para colocar na frente do desenvolvimento de uma plataforma. Eu não tenho como elogiar ele o suficiente. E depois de duas gerações com a Sony japonesa fazendo o console e a Sony europeia fazendo a rede online, eu acho que esse novo paradigma era exatamente o que a marca precisava para seguir em frente.
Em suma: o PlayStation 4 mostrou um foco na plataforma enquanto produto, ao invés de ser um exercício do ego de engenheiros.

Ponto negativo: Promessas

Eu me lembro da revelação do PS3 e como mostraram uma loja online integrada dentro de cada jogo, respeitando o estilo de arte deles – algo que não vemos em virtualmente nenhum título do PS3 – e quando está presente, é mais incomoda de usar quanto a péssima loja da PSN. A Sony traiu nossa confiança com promessas vezes demais para dar um cheque em branco para ela.

Eu sinceramente adorei os pontos levantados por Cerny, e as promessas deles me empolgaram muito... mas ao mesmo tempo, ele falou quase exclusivamente em abstratos e mock-ups de telas. A única funcionalidade que vimos em ação foi subir um vídeo. Toda a parte de streaming, funções sociais, especificações de hardware, novidades do controle... foi explicada em termos abstratos. A nossa imaginação faz maravilhas na hora de preencher as lacunas – mas a realidade muitas vezes não corresponde a isso. É muito fácil falar coisas como “Nothing between you and the game” e “Fluidly connect to a larger world” ou “Harnessing the power of developers”… mas essas coisas não se traduzem em termos concretos com facilidade. Dessa forma fica difícil de esperar a Sony de não entregar o que prometeu. É muito bonito prometer um jogo que para e recomeça instantaneamente ao desligar ou rodar jogos durante download... mas sem ver isso funcionando, a imaginação faz maravilhas que a realidade pode não entregar.

Eu amo os conceitos por trás do PlayStation 4. Eles realmente me empolgaram. Mas sem ver como eles funcionam, eu temo que será difícil corresponder às minhas expectativas. Da mesma forma, as promessas de criação de servidores Gaikai em escala global requer uma fé enorme – especialmente para uma empresa na situação financeira da Sony. Uma coisa é clara: a Sony está apostando a casa no console.

Um detalhe: na hora de mostrar o depoimento dos criadores de jogo, parece que omitiram o nome do Randy Pitchford, que acabou de passar por uma controvérsia com o lançamento de Aliens: Colonial Marines. Eu não acho que isso foi coincidência – acho que tiveram dificuldade em editar ele fora do vídeo, então colocaram outra imagem no momento em que o crédito dele era mostrado. Essa atenção com a PERCEPÇÃO da apresentação é o que me preocupa – ela era mais importante do que as capacidades fatuais. A qualidade dos slides era fantástica, de deixar a Apple com inveja. Mas eu sinto que a demo da Media Molecule resume bem a minha opinião: uma demonstração incrível do que é possível ser feito... mas eu não faço a mínima ideia de como aquilo funciona ou era controlado. Eles disseram que foi capturado em um take, mas não era possível entender como os controles funcionavam, e a ação era mostrado em 3 telas separadas... empolgando a imaginação, mas falhando em entregar algo que pode ser reproduzido em casa.

Ponto positivo: Foco na plataforma de jogo

Eu realmente esperava que a Sony fosse empurrar o fato do console suportar as novas Bravias com resolução 4k, integração com telefones da Sony... a velha ladainha do ecossistema da empresa de usar um produto para empurrar outros. Mas a direção foi exatamente a contrária: um foco em uma plataforma digital baseada na Internet – em teoria essas funcionalidades não estarão restritas ao aparelhos e conceitos da empresa. Pode parecer uma besteira, mas essa liberdade não apenas favorece o consumidor, mas ajuda a fomentar possibilidades incríveis que eram impossíveis por conta da teimosia da empresa.

Ponto negativo: Os jogos

Killzone: Shadow Fall

Killzone: Shadow Fall

Façam as contas. Das demos de jogos mostradas, quantas delas mostravam situações fatuais de jogo? Um pouco de Knack, que não era particularmente impressionante; um pouco de Killzone, que já perdeu a credibilidade e trazia uma situação de jogo tão controlada que era pouco mais do que uma cutscene pré-planejada (como as set pieces de Uncharted); Destiny mostrou cenas rodando no hardware, provavelmente uma situação de jogo, mas sem nenhuma ação; o resto era composto de tech demos (incluindo uma requentada do ano passado da Square Enix) e cenas não interativas (InFamous SS). Quem sobrou? Watch Dogs, provavelmente a demonstração mais significativa... mas também uma das menos impressionantes – e tive a impressão que o jogo mostrou sinais de tearing durante a demo.

Nesse ponto, o passado da Sony traiu eles. As expectativas do público são o anúncio de um Final Fantasy, Metal Gear e Grand Theft Auto exclusivos. Nenhum desses foi mostrado ou confirmado como exclusivo. Mesmo sabendo que surpresas estão sendo guardadas para a E3 em breve, com menos de 10 meses para o lançamento, é difícil não ficar preocupado com a corrida contra o tempo que a Sony tem pela frente.

O truque: Prestidigitação

Eu vi algumas pessoas comentando que não mostraram o casco do aparelho, com alguns citando que é uma surpresa deixada para a E3. A Eurogamer fez a pergunta que não quer calar: O PS4 vai rodar jogos usados? Depois de uma estranha troca com a equipe de RP, uma resposta diz que “jogos usados podem rodar no PS4”. Note que ele é vago, e precisou de ajuda para responder. Eu acho que essas duas informações se complementam com uma terceira: a mídia ótica foi amplamente ignorada na apresentação. O release menciona um leitor de Blu-ray, mas sem maiores detalhes.

Com retrocompatibilidade potencialmente restrita ao sistema de streaming do Gaikai, um foco gigantesco nas capacidades de download (inclusive falando em download inteligente de conteúdo baseado nos hábitos do consumidor e começar a jogar durante a transferência), sem falar nos muitos serviços de streaming de filmes e música, eu não vejo necessidade nenhuma em um drive ótico. Se não fosse o fato de Shuhei Yoshida mencionar que o console não precisa estar sempre conectado, eu não ficaria nem surpreso de um anúncio que ele seria uma plataforma similar ao Onlive: com a nova estrutura tradicional x86, não seria difícil distribuir a computação dos jogos em um serviço de nuvem, dado que você tenha os servidores que a Sony prometeu (mas provavelmente não vai implementar no curto ou médio prazo).

Comparação entre o PS3 revelado inicialmente e o produto final

Comparação entre o PS3 revelado inicialmente e o produto final

As caixinhas de jogos não devem sumir. A Sony não pode comprar uma briga com as lojas físicas pois ainda precisam vender o console. Mas eu acredito que o PS4 pode muito bem seguir o exemplo usado no PSP e trazer uma embalagem com um código de download. Minha teoria original era que a unidade simplesmente não teria um leitor de disco (que, por sinal, era o plano original de Kutaragi para o PS2. Não, você não leu errado, ele queria que os jogos de PS2 fossem todos baixados quando começou a bolar o console). A Sony já mudou especificações antes do lançamento: quem se lembra da primeira aparição do PS3 com 3 portas de rede, 2 saídas HDMI e USB extra? Eu sinceramente não vejo razão para não mostrar o casco do aparelho a essas horas do campeonato - não é como se houvesse muita coisa visual interessante que ele fosse roubar o foco, e todos lembramos o que acontece quando você deixa para terminar o casco de última hora.

Eles podem muito bem delegar a culpa para os distribuidores de jogos e dizer que todos eles insistiram em sua preferência por não usar mídia física (e ainda matam a polêmica de DLC em disco em uma tacada só).

Balanço final

Eu estou genuinamente empolgado com o aparelho. Eu sinto uma necessidade, entretanto, de não deixar a imaginação voar longe. O PS4 que existe na minha cabeça vendo a apresentação certamente não corresponderá ao que deve chegar às lojas no fim do ano. Da mesma forma, as especificações técnicas sugerem um console incrivelmente caro. 8GB de GDDR5 custam uma pequena fortuna, e um chipset integrado personalizado baseado nas especificações citadas não melhora nada isso (did I mentioned the bundled camera?). Montar uma máquina com essas especificações por menos de US$500 é virtualmente impossível – e somado à atual situação financeira da empresa e a promessa de montar a infraestrutura da Gaikai só coloca mais dúvidas na veracidade das afirmações.

Entretanto, o meu medo é um pouco maior: qual o impacto desse poder todo na indústria? Meu próximo editorial é focado exatamente nos desdobramentos perigosos caso a Sony realmente entregue exatamente o que prometeu.

P.S.: Alguém me explica como o botão Options pode substituir o Select e o Start ao mesmo tempo? É o que o release dizia...

P.P.S.: Parece que minha dúvida sobre a resposta do Yoshida tinha algum fundamento. Ele voltou atrás na afirmação, e bate com minha teoria de jogar a culpa para o desenvolvedor. Caixinhas vazias só com código de download? Veremos.

Esta postagem também está disponível em: Inglês

Author, freelance videogame journalist, cinematography major and a little insane.

Comments

  1. Leonardo Oliveira says:

    Excelente matéria… Aguardo mais editoriais com a mesma qualidade… Grato…

    1. Obrigado, eu quero colocar um próximo comentando sobre meus medos dessa nova geração no começo da semana que vem.

  2. Flavio says:

    acho que o botão options será tipo o “esc” nos jogos de PC, serve tanto p/ pausar quanto p/ acessar menus, sem esquecer que com o touchpad dá p/ configurar um toque como qlq coisa até mesmo um pause, caso seja necessario

  3. Alexandre says:

    Ótimo artigo, concordo com praticamente tudo.
    Acrescento que embora os jogos não precisem de midia num futuro próximo, e as caixinhas não devam ser abandonadas por conta do varejo, ainda há o Blu-ray (padrão da Sony também para filmes), que confirma de vez a presença do leitor no PS4.

  4. Bruno Barbosa says:

    Ótima artigo Gabriel. Também não pude deixar de ficar empolgado, mas como muitos também achei que não mostraram tanto assim porque a Sony quer mesmo é que fiquemos falando sobre isso até o próximo evento. Algumas dúvidas:

    – Dessa vez eles anunciaram o console com um tempo bem mais curto em relação a “data de lançamento” em comparação com o PS3 não? Na época o PS3 havia sido anunciado em 2005 (na E3 senão me engano) e o console só chegou no final de 2006 (junto com o Wii). O que poderá ter mudado, será que a Sony está tão confiante assim?

    – Alguma vez a sony ou outra importante fabricante de console realmente cumpriu com o que prometeu na apresentação de um console?

    Abraço!

    1. Sim, Bruno, esse é de longe um dos anúncios mais em cima da hora de todos os tempos (só vai perder para o próximo Xbox, por motivos óbvios – ele ainda está para ser lançado e vai sair no fim do ano).

      O que eu posso te dizer que ouvi de fonte confiável é que as duas empresas estavam prontas e na iminência de lançar o console, mas estavam tentando esperar o máximo possível – só que a pressão dos distribuidores tem sido bem pesada… e o Wii U estar nas prateleiras também não ajudou. Mas o Xbox foi quem deu o primeiro passo e decidiu lançar no fim do ano, porque a Microsoft está totalmente pronta para isso. Só que a Sony não estava, e essa conferência foi totalmente corrida.

      Eu SUPONHO que o que deve ter rolado é que o foco da MS serão as funções sociais, que algum desenvolvedor vazou para a Sony, e eles quiseram correr para mostrar algo para o público antes só para não serem acusados de copiadores. Mas eu posso garantir que a Microsoft está sossegada em mostrar algo muito mais concreto – algo que poderiam fazer agora mesmo se quisessem.

      Eu diria que a Nintendo tem consistentemente sido bem sincera nas apresentações e entregas do que prometeu para virtualmente todos os consoles deles – em grande parte por não serem tão hiperbólicos quanto a concorrência.

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