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O future da narrativa, uma escolha de cada vez

05 August on Blog, Editoriais  

Não é novidade que eu acredito que a narração de histórias tem o potencial de evoluir através dos videogames – com jogos como Mother 2 e Metal Gear Solid 2 reescrevendo as regras de como a ficção pode funcionar no século 21 –mas recentemente tenho pensado muito sobre Visual Novels como uma alternativa viável a um produto de entretenimento que não seja um jogo... que encontrei por meio de Katawa Shoujo.

Desenvolvido por um grupo independente composto de usuários do 4chan, este jogo é um Visual Novel segundo padrões japoneses –mas muitos o entenderão apenas como um Dating Sim. Não que esta definição esteja errada, mas numa virada surpreendente, o roteiro aqui é muito bom. Quando se leva em conta que o roteiro tem um protagonista com doença cardíaca que se muda para uma escola para crianças com deficiências (com romances em potencial com uma garota surda, uma cega, uma talidomida sem braços, uma garota com as duas pernas amputadas e uma com o rosto coberto por cicatrizes), logo se assume que o jogo vai degringolar rapidamente para o fetichismo... mas não é esse o caso. A história é contada com uma sensibilidade surpreendente, o que até gerou algumas discussões interessantes.

As Visual Novels aparentemente representam 70% de todos os jogos para PC no Japão, e também estão presentes na maioria dos consoles e portáteis de lá. O gênero é bastante sub-representado for a de lá, com apenas poucos títulos mais complexos como Ace Attorney e a rara exceção como Time Hollow aparecendo do outro lado do pacífico. Embora não possuo dados concretos, presume que a grande maioria dos títulos no Japão é do tipo bem básico “muito texto, faça uma escolha, repita” com imagens estáticas e temas românticos. Não vejo qualquer problema com o primeiro aspecto, mas Katawa Shoujo me fez perceber o enorme potencial deste modelo – com ou sem temas românticos (que podem ou não ainda conter pornografia).

Antes de tudo, este simples “leia bastante e faça uma escolha” é mais ou menos o equivalente da atual mania casual. Qualquer comprador em potencial pode ler e fazer escolhas – e sabemos que o Mercado de publicações de ficção é bem real – quer dizer, quanto dinheiro se foi feito por Harry Potter e Crepúsculo recentemente? Eu acho que é bem nítido que ambos desses casos resultaram em toneladas de merchandising já que as pessoas querem fazer parte destes universos. As Visual Novels e outros tipos de Ficção Interativa parecem ser uma forma razoável de se aproveitar esta demanda. Isto não quer dizer que não existam alguns obstáculos aqui: ler numa tela de computador não é sempre uma experiência das mais agradáveis, como a maioria dos que leem muito pode dizer. Mas com aparelhos como o Kindle e o iPhone/iPod Touch se tornando mainstream, isto pode rapidamente se tornar um problema bem menor.

Na verdade, este modelo interativo tem até mais vantagens. Não só adere à Casual Craze e à New Portable Devices Fad, como também cabe perfeitamente no modelo Episodic/App Store com bastante facilidade. Acredito que o maior problema aqui seja como fazer o habito começar – encontrar uma maneira de “ensinar” as pessoas o valor de tal produto. A melhor forma, obviamente, seria aproveitar licenças como as mencionadas acima: Crepúsculo ou Harry Potter, e porque não obras de autores como Tom Clancy ou Dan Brown, ou até programas como Lost?

A melhor parte é que este gênero ainda está na sua infância, é uma mídia com incrível potencial. No inicio você provavelmente ficaria no básico – mas porque não voar mais alto? Poderiam trabalhar com elementos que seriam influenciados pelo número de pessoas que escolheram cada resposta, ou incluir tendências em futuros episódios... e estas são apenas ideias rápidas. Neste mundo cheio de ARGs, estas peças interativas podem ser mais uma parte do quadro maior.

Mas, no entanto… o gênero está quase morto for a do Japão. Depois da morte lenta e agonizante dos Adventure Games (como Monkey Island e King's Quest), me parece que qualquer esperança que as Visual Novels possuíam no ocidente foi perdida. Mas quero acreditar que isto mudará. Talvez depois que as pessoas enjoem daqueles jogos casuais de “objetos escondidos” que eu tanto desprezo, alguém irá lembrar que uma boa história que coloque VOCÊ como protagonista é um Santo Graal a ser encontrado. E sabe qual a melhor parte? Existem várias ferramentas gratuitas para criá-las disponíveis na internet.

Mas quer saber? Não confiem só na minha palavra. Façam o download do demo do Katawa Shoujo, e experimente você mesmo (recomendo jogar pelo menos duas vezes para ver finais diferentes) e me diga que não pagaria por uma Visual Novel bem escrita o mesmo que pagaria por um bom livro.

P.S.: Sim, sinto falta dos meus GameBooks.

Esta postagem também está disponível em: Inglês

Author, freelance videogame journalist, cinematography major and a little insane.

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