Our Blog

Blog
 

Minha opinião sobre o OUYA

12 August on Blog, Editoriais  

Muita gente tem me perguntado sobre o OUYA ultimamente. Para quem não está acompanhando, ele é um dos mais recentes queridinhos do Kickstarter (site para financiar projetos independentes) na forma de um “console” de jogos aberto. O termo precisa ser usado com cuidado, e apesar de muita gente estar bastante empolgada, para mim isso me parece um dos maiores golpes na indústria desde o Phantom. O que realmente me impressiona, na verdade, é que não se os criadores dele são maliciosos ou ingênuos.

Eu acho bom começar isso com um conto para precaver as pessoas. Era uma vez um executivo fundador da EA, Trip Hawkins, que estava saindo da sua empresa para buscar o sonho de criar uma plataforma de games semi-aberta – alguns de vocês se lembram do 3DO. Não apenas a empresa permitia que terceiros criassem suas próprias revisões de hardware, mas os royalties para o software eram extremamente baixos. O conceito parecia bom: criar um console poderoso com licenciamento extremamente competitivo e a possibilidade de várias revisões do hardware sem risco à sede. Mas o preço alto do console segurou as vendas iniciais, e os royalties baixos resultaram em virtualmente nenhum suporte para as licenciadoras que lançavam software. Resultado: um verdadeiro desastre.

O OUYA tenta fazer algo diferente, mas algumas lições merecem ser lembradas. Vamos começar pela filosofia do aparelho. Eles estão oferecendo um console baseado em Android com software especializado para rodar sua loja própria (a mesma rota que a Amazon empregou para o Kindle Fire). As entranhas não são muito diferentes de outros media centers e tablets já disponíveis no mercado. Ele se orgulha em ser extremamente hackeavel. E foi colocado no Kickstarter com foco em vendas para desenvolvedores de jogos. Se você não pensar muito, parece um verdadeiro sonho para os indies: um hardware potente que é extremamente acessível e virtualmente sem nenhum entrave de criação que outros sistemas de distribuição digital oferecem. Então o objetivo original de juntar US$950.000 foi atingido... e ultrapassado. Eles agora estão sentados sobre mais de 8 milhões de dólares. “ANIMAL!”, os criadores de games independentes estão pensando em uma enorme base de usuários. Mas será que essa é a realidade?

Minha principal preocupação está nas motivações dos criadores. Primeiro, eles parecem um tanto ambíguos em sua estratégia, especialmente ao revelar opiniões conflitantes sobre buscar mais investimento de outras fontes. Eu também recomendo ler esse artigo que nos lembra de algumas das realidades postas de lado pelos criadores. Mas vamos deixar tudo isso de lado e raciocinar um pouco. No fim do dia, quase todo o desenvolvimento de hardware do OUYA está relacionado à caixa e acabamento (que PODEM ser problemáticos, como o design auto-destrutivo original do Xbox 360 nos lembra). A maior parte do desenvolvimento de software será ao redor da loja. Então... na verdade, o OUYA é uma plataforma de entrega de software – não muito diferente do Phantom (eles pelo menos fizeram o "lapboard" para mostrar algum esforço). Se o que eles mais querem é ajudar os desenvolvedores de software não faria muito mais sentido criar o OUYA como uma plataforma dedicada de distribuição de software agnóstico para plataformas pré-existentes como SmartTVs a Media Centers? Sim, seria necessário contemplar algumas variações de hardware, o que é ruim… mas se eles são dedicados aos hacks de usuários ao ponto de dizer que eles não tiram a garantia do produto, não daria na mesma?

Pensem um pouco. Se o OUYA fosse um app instalável como um canal no Google TV, SmartTVs da Samsung etc. (estratégia empregada, por sinal, pelo Gaikai – pelo menos antes da aquisição pela Sony) isso não seria muito mais salutar para os desenvolvedores? Você ganharia uma penetração instantânea em milhões de lares, com uma demografia extremamente variada. No momento, a audiência do OUYA parece ser restrita principalmente a... um bando de desenvolvedores independentes de games. Eles são uma audiência, mas não exatamente uma audiência tão ideal quanto as pessoas acham.

Voltemos ao modelo de negócio. Eu imagino que eles não estão ganhando dinheiro só com o hardware – provavelmente haverá uma porcentagem das vendas na loja, que eu imagino será a maneira oficial de comprar jogos. Eles esclarecem a possibilidade de dar root no aparelho e portanto implementar pirataria nele deve ser bastante simples – um péssimo sinal para os desenvolvedores. A loja ainda terá curadoria dos criadores, e isso pode seguir duas rotas – Xbox Live Arcade e PSN tem uma experiência de usuário fantástica, mas são incrivelmente restritivas para os pequenos desenvolvedores. A App Store é muito mais aberta para esses criadores, mas suas regras arcanas e arbitrárias o tornam extremamente imprevisível e muito difícil de fazer investimento de jogos mais elaborados para ela. Até saber exatamente como sera sua operação, é difícil ter certeza. Mas a pior parte é que provavelmente seguirá a rota do 3DO ao tentar buscar desenvolvedores, mas acabará não dando suporte próprio a eles na premissa de ser “aberto”.

Eu odeio o uso deles da palavra “aberto”. Ela é usada de uma maneira um tanto enganadora. A loja é curada, então não é completamente aberta. Eles exigem que todo jogo tenha uma demo gratuita. E quem sabe que tipo de restrições serão colocadas? Posso fazer um jogo com pornografia gráfica? E se puder, isso vai fazer com que pais proíbam os filhos de usar o aparelho? Eu estou ciente que é impossível agradar a gregos e troianos dessa forma, mas alguns sacrifícios precisam ser feitos – eu só gostaria de saber quais eles são antes de me comprometer. Nós temos notícias do suporte de empresas grandes como a Square Enix trazendo títulos para o OUYA... mas será que eles ficarão lá por muito tempo se os jogos deles estiverem completamente cercados de simuladores de estupro na loja?

Recapitulando: temos um hardware quase sem nenhum desenvolvimento interno colocado em uma caixa bonita, que não sabemos se conseguirá espaço nas prateleiras das lojas físicas, uma platéia composta primariamente de desenvolvedores independents, a distinta possibilidade de suporte quase inexistente, regras nada claras sobre a loja – e com o uso da palavra “aberto”, os desenvolvedores provavelmente terão quase nenhum argumento legal se as regras forem mudadas no meio do caminho e você se ferrar no processo... tudo isso para ter acesso a uma configuração de hardware genérica que as pessoas já tem em casa hoje em dia.

Vamos tentar ser otimistas por um segundo aqui. Digamos que TUDO funcione maravilhosamente bem. Vamos fingir que eles não tropecem em nenhum desses problemas. Quantos mercados digitais estão tentando competir com o Steam, plataforma disponível atualmente para PCs e Macs, e provavelmente Linux em um futuro próximo, dadas as recentes reclamações de Gabe Newell? O OUYA não somente terá de competir com todos esses mercados digitais que estão pipocando por ai, mas também outras máquinas dedicadas ou não a jogos. Por que correr o risco de começar uma batalha enorme em duas frentes (nas quais, devo adicionar, empresas muito maiores falharam várias vezes) quando você emprega uma configuração de hardware que já está amplamente difundida?

Infelizmente eu acredito que o sucesso do OUYA é o fruto da frustração tanto dos consumidores quanto dos desenvolvedores pequenos com os ambientes digitais cada vez mais controlados. Tudo isso me lembra de um bando de adolescentes reclamando sem pensar – eles podem até ser bem intencionados, mas isso provavelmente não vai levar a nada.

Esta postagem também está disponível em: Inglês

Author, freelance videogame journalist, cinematography major and a little insane.

Comments

  1. Leonardo says:

    O texto me fez refletir e talz. Mas ainda assim eu compraria o ouya pela simples razão de que por $99 eu posso jogar, na tv da sala, desde jogos de 8 bits até os de ps1. Pode não ter futuro como um console com games próprios, mas ainda é algo útil(ao menos pra mim).

    ps: se ele tiver jogos próprios será um adendo, então, torço para que funcione. ;P

Publicidade
Arquivos