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Análise: The Last of Us

18 July on Análises, Blog  
A relação de Joel e Ellie em um mundo em ruínas é o foco do jogo

A relação de Joel e Ellie em um mundo em ruínas é o foco do jogo

A Naughty Dog fez história com Uncharted, sua série de estreia no PS3: o primeiro jogo mostrou o enorme potencial gráfico e narrativo do console, enquanto o segundo episódio refinou a fórmula em um dos mais divertidos e emocionantes jogos de ação dessa geração. Seja nas cenas semi-interativas de tirar o fôlego até o diálogo natural durante a ação, Nathan Drake garantiu seu lugar no panteão dos grandes personagens dos videogames. Mas Uncharted 3 foi contra essa onda e se provou bastante inferior ao predecessor – fato que começou a fazer sentido quando logo em seguida a Naughty Dog confirmou que estava criando um segundo jogo em paralelo: The Last of Us. Com a premissa de mostrar os Estados Unidos em um cenário pós-apocalíptico de um praga de fungos que transforma as pessoas em zumbis violentos, o game se foca no protagonista “mais velho do que de costume” Joel e a jovem Ellie.

Ao contrário de Uncharted, Last of Us já começa logo de cara com uma atmosfera bem mais intimista, que lembra muito o que a Telltale fez em sua minissérie de The Walking Dead: um breve prólogo ilustra o começo da tragédia e o passado de Joel, para rapidamente catapultar o jogador para esse mundo deprimente: pessoas passando fome e sofrendo nas mãos de uma ditadura militar. Joel agora é um contrabandista, trabalhando com a amiga Tess. A situação novamente sai do controle e ele se vê forçado a contrabandear uma jovem de 14 anos para um grupo de resistência conhecido como os Fireflies, sendo forçado a cruzar o país devastado com ela. Apesar de tentar ser criativa, a premissa fica longe disso – qualquer leitor da HQ The Walking Dead ou fã do seriado de TV Revolution verá inúmeros paralelos imediatamente. Todos os velhos truques narrativos são utilizados de cara, não somente para cimentar a ambientação, mas também arrancar lágrimas forçadas do consumidor.

Joel passará por grandes provações para sobreviver

Joel passará por grandes provações para sobreviver

Do outro lado, a interação do jogador com o game tenta ser um pouco mais criativa e diferente, mas esbarra em vários pequenos problemas. Last of Us segue a escola Silent Hill de oferecer um protagonista incapaz de atacar todos os inimigos diretamente, sendo forçado a criar armadilhas, usar furtividade e se apropriar de qualquer mantimento ou ferramenta abandonado nos locais devastados. Separadamente, esses elementos são bem interessantes, mas a mistura deles traz alguns problemas de execução – como por exemplo os inúmeros funis que impedem o jogador de voltar para áreas já exploradas. Como no começo é difícil saber qual é a porta que avança, você nunca sabe onde explorar primeiro e perde vários colecionáveis e itens quando eles são mais importantes. A Naughty Dog parece realmente encorajar vários playthroughs através de uma opção de New Game+, mas exceto por enfrentar dificuldades maiores, o game não se presta bem para isso.

É exatamente essa crise de identidade do jogo que mais o prejudica: claramente o elemento de “scavenging” (revirar e vasculhar) era para ser um dos focos, mas parece conflitar diretamente com a furtividade e combate. Eleger um foco claro, como por exemplo decidir que a tensão é mais importante (como vimos em Siren, por exemplo), certamente deixaria o game mais coeso. Algumas das mecânicas são estranhamente arbitrárias, especialmente ao se utilizar furtividade: nada mais bizarro do que passar agachado lentamente entre uma horda de Clickers, inimigos que supostamente usam ecolocalização como morcegos (mas que o jogo implementa praticamente só como uma audição muito boa)... enquanto seus companheiros passam correndo e fazendo barulho sem nada acontecer. Não que a experiência não seja boa: as cenas em que o jogo claramente elege um aspecto com clareza são os pontos altos da aventura, que tem uma duração respeitável. Jogar nas dificuldades maiores é especialmente recompensador, forçando você a usar os truques mais avançados para sobreviver.

A representação do mundo pós-apocaliptico é um dos pontos fortes

A representação do mundo pós-apocaliptico é um dos pontos fortes

Não é difícil estabelecer paralelos entre esse jogo e Bioshock Infinite: ambos lidam com um protagonista mais velho e durão (ambos dublados por Troy Baker) que precisam escoltar uma jovem (controlada pela IA do jogo) em um mundo decadente; ambos se focam pelo forte drama e violência excessiva, assim como apresentam um forte elemento de “scavenging”. Eu comentei em minha análise de Bioshock Infinite que suas mecânicas formativos são fracas, mas amarradas por uma narrativa pessoal e instigante. The Last of Us faz o contrário – separadamente, as mecânicas são bem legais, mas a mistura delas peca pela falta de coesão, truques emocionais baratos e o jogo constantemente quebra a suspensão de descrença: nada pior do que ver seus companheiros fazendo mil besteiras óbvias e sendo ignorados pelos inimigos.

O erro de The Last of Us parece ser tentar com força demais sem ter uma alma: até mesmo a tipografia do título é um claro caso de seguir a maior moda do momento, da mesma forma que tem se abusado do contraste laranja/azul nos últimos anos. Ele é um grande mash-up de outras obras populares – não inspiração, mas cópia sem algo pessoal. O uso excessivo de truques dramáticos – incluindo um final que ressoa com uma insinuação de que podemos esperar uma continuação no futuro – e várias perguntas deixadas em aberto só reforçam o sentimento de algo faltando. Eu pessoalmente acredito que a Naughty Dog não tinha maturidade para tentar fazer dois jogos em paralelo... e tanto Uncharted 3 quanto The Last of Us sofreram com isso, apesar do esforço principal claramente ter sido colocado nesse último lançamento.

Não se engane: essa aventura certamente merece ser jogada. Só recomendo acertar as expectativas e não esquecer que games merecem mais do que ser sombras de outras obras de sucesso.

Ficha técnica
The Last of Us
Plataformas: PS3
Desenvolvedor: Naughty Dog
Publisher: Sony Computer Entertainment

Esta postagem também está disponível em: Inglês

Author, freelance videogame journalist, cinematography major and a little insane.

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