Our Blog

Blog
 

Análise: Grand Theft Auto V

09 October on Análises, Blog  
Roubar veículos ainda é a alma do jogo

Roubar veículos ainda é a alma do jogo

Grand Theft Auto V é mais do que um jogo - a série vem explodindo de tal forma que ele ultrapassou o status icônico e passou a se configurar como um verdadeiro fenômeno. O próprio fato do nome ser mais mencionado como a sigla GTA do que o nome completo é um sinal dessa transmigração: é quase como se existissem dois Grand Theft Autos: um que é um jogo, algo concreto e jogável, e outro que é um conceito abstrato. Esse último é o mesmo que é tão criticado pela mídia conservadora, uma essência de um simulador de transgressão que existe em um vácuo de jogabilidade, como se ele se resumisse a atropelar prostitutas recém-empregadas para roubar seu dinheiro. Todos os recordes quebrados de vendas, na minha opinião, confirmam minha teoria – essas pessoas não compraram o jogo, mas o conceito do jogo.

Grand Theft Auto tem um longo pedigree – antes mesmo da DMA (o estúdio escocês que criou Lemmings e eventualmente virou a Rockstar North) fazer o primeiro jogo da série com perspectiva aérea, eles já haviam brincado com o conceito em Body Harvest, jogo de Nintendo 64 com mecânica similar, só que usando alienígenas e sem todo o conteúdo politicamente incorreto. Quando Race and Chase foi rebatizado de Grand Theft Auto e chegou às prateleiras, o jogo foi alvo de críticas na imprensa por conta da violência e outros temas controversos. O que muita gente não sabe é que boa parte dessa controvérsia foi fruto do esforço de um publicitário que queria ganhar mídia para o jogo. E uma vez que a bola começou a rolar, a inércia apenas manteve a tendência. Mas talvez o momento mais importante na história da série seja o lançamento de GTA III: a série não apenas foi refeita quase do zero em 3D, mas definiu virtualmente quase todos os elementos que a caracterizam: das tramas que mergulham em diferentes submundos e subculturas do crime organizado até as famosas estações de rádio.

A mecânica de golpes é a melhor adição do jogo

A mecânica de golpes é a melhor adição do jogo

GTA III saiu cerca de 4 anos depois do original. 12 anos depois de GTA III, recebemos GTA V... e quase nada mudou. Sim, a Los Santos que jogadores poderão explorar é ridiculamente gigantesca e inclui até a representação das partes submersas. Sim, a nova mecânica de golpes e múltiplos protagonistas adiciona uma nova camada bastante interessante de possibilidades. Sim, o jogo faz uma boa edição em trazer alguns dos melhores elementos de jogos passados enquanto ignora alguns outros menos populares. Mas onde fica a alma de GTA?

Na minha opinião o elemento mais interessante da série era seu espírito transgressor: inúmeras piadas politicamente incorretas, ignorando os limites morais que outros jogos respeitavam para não desagradar ninguém. Mas eu leio as entrevistas do roteirista Dan Houser e sinto que ele parece ter uma inveja enorme dos criadores de filmes como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, tentando dar um clima adulto e com pretensões intelectuais, mas amarrado com um humor adolescente que fica fazendo piadas gratuitas de sexo – como ilustrado pelo minigame de ioga. GTA me parece um homem de meia-idade comprando uma Harley-Davidson ou tentando se enturmar com os amigos do filho para combater a depressão de estar ficando velho. Ele continua tentando viver na glória de seus dias dourados, ao invés de fazer algo mais apropriado para sua idade. Eu sinto vergonha alheia nessa bizarra tentativa de ser provocativo e sagaz em meio a tanto humor adolescente.

O mundo de GTA ganha nova dimensão embaixo d'água

O mundo de GTA ganha nova dimensão embaixo d'água

Isso também afeta a jogabilidade, por conta do amadurecimento da indústria. Cada vez mais os games se tornam especializados e intuitivos – vemos exemplos como Uncharted 2, que “trapaceiam” ajudando o jogador para garantir uma experiência cinematográfica. Estamos fugindo de jogos como Prince of Persia ou o Tomb Raider original, que exigia saltos com precisão milimétrica para os Assassin’s Creed, que recuperam a sensação de fazer algo impressionante sem frustrar o jogador com minúcias da execução. Grand Theft Auto vai no sentido contrário, por conta de sua lógica faz-tudo: o controle do jogo é complexo e confuso, um verdadeiro canivete suíço. Quantas vezes eu não arremessei um dos protagonistas contra uma parede, batendo com a testa e caindo no chão durante tentativas de escalar muros? Não foram poucas, e esse tipo de comportamento é visto como defeito pelas regras atuais. Não que eu seja contra alto desafio – mas ele precisa ser casado com controles altamente precisos, como vemos em jogos de luta. Eu concordo que isso é um pequeno preço a se pagar pela variedade que GTA oferece – e se GTA se especializou em algo, foi exatamente em sua enorme versatilidade – mas eu preferia que isso fosse balanceado com o mesmo estilo empregado por concorrentes nesse estilo sandbox como Assassin’s Creed, Crackdown, Sleeping Dogs e Saints Row: enchendo o mapa de mini-missões que garantem um constante e quase ininterrupto fluxo de tarefas – um sonho para explorar nosso lado obsessivo-compulsivo. GTA parece ter se julgado superior à concorrência e limitado esse aspecto, quase como uma crítica aos demais – ao mesmo tempo que adiciona um app besta para celular com mini-games gratuitos e limita a visualização de fotos tiradas pelos personagens apenas ao site social fora do jogo.

São muitos mini-games, mas a qualidade varia bastante

São muitos mini-games, mas a qualidade varia bastante

Isso não quer dizer que GTA não traz alguns conceitos incríveis. Apesar de ver a desnecessária Internet falsa estreada em GTA IV retornar, a adição dos dois mercados de bolsa de valores – um off-line e outro online e persistente, mostra a genialidade da empresa em alavancar elementos sociais: a comunidade já está manipulando a segunda, manipulando inflações e deflações arbitrárias para ganhar dinheiro fácil. Esse é apenas um dos exemplos, e apesar de um começo bastante complicado por instabilidade nos servidores, a opção de multiplayer online parece trazer alguns conceitos interessantes com enorme potencial. Fãs da série encontrarão um prato cheio de deliciosos crimes politicamente incorretos, variadas atividades criminais e passatempos... curiosos... de jogar tênis a visitar strip clubs.

GTA V não é um jogo elegante, mas seu maior pecado é ter perdido o espírito transgressor que motivou seu sucesso estratosférico. Isso não o impede de ser o melhor GTA já lançado – as nuances dos golpes para mim já fizeram valer a pena. Mas fico triste de ver o potencial desperdiçado ao tentar atender às expectativas ao invés de inovar e provocar como fazia originalmente. A insistência em repetir a mesma piada depois de 10 anos deixa de ser engraçado e passa a ser deprimente, e eu acredito que a Rockstar tem o talento necessário (para não falar no dinheiro) para se arriscar novamente.

Ficha técnica
Grand Theft Auto V
Plataformas: PS3, Xbox 360
Desenvolvedor: Rockstar North
Publisher: Rockstar Games

Esta postagem também está disponível em: Inglês

Author, freelance videogame journalist, cinematography major and a little insane.

Publicidade
Arquivos