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Análise – Bioshock Infinite

02 April on Análises, Blog  

Muitas pessoas criticam a pasteurização da produção de Hollywood: cada vez mais os filmes se parecem uns com os outros na eterna corrida de diminuir riscos em meio a orçamentos cada vez maiores. Os games já começam a sofrer com isso também: Halo 4, primeiro jogo a ser totalmente produzido pelo novo estúdio depois da saída da Bungie começa a se parecer cada vez mais com Call of Duty. Imagine minha surpresa ao ver um dos mais esperados – e provavelmente caros – jogos sendo lançados que parece nadar exatamente na direção oposta.

Elizabeth acompanha o jogador, ajudando e cativando durante a aventura

Columbia impressiona com sua excelente produção visual, remanescente dos passeios da Disney

Bioshock Infinite é o mais novo produto da mente de Ken Levine, criador de jogos marcantes como Thief, System Shock 2 e seu sucessor espiritual, Bioshock. Mas Infinite não é apenas uma continuação para se aproveitar da força da marca: muitos elementos são curiosamente diferentes da aventura submarina. Jogadores agora encarnam um personagem específico, com nome, falas e um passado. Booker DeWitt é um ex-agente da Pinkerton, a agência privada de detetives que serviu de base para o FBI, e um dos soldados que participou do polêmico massacre de Wounded Knee. Ele recebe a missão de resgatar uma garota para pagar suas dívidas... e a premissa do jogo basicamente termina ai, levando o protagonista à cidade voadora idílica de Columbia... o começo do que se prova uma jornada repleta de momentos inesperados.

Elizabeth acompanha o jogador, andando a fina linha de ajudar e cativar

Elizabeth acompanha o jogador, andando a fina linha de ajudar e cativar suas emoções

Parte do apelo do jogo está exatamente nisso – estamos tão complacentes com a mesmice dos jogos atuais que é um susto ver alguns dos truques narrativos empregados em Infinite. A primeira vez que Call of Duty explodiu uma bomba atômica do ponto de vista de um helicóptero foi chocante. Mas quando a continuação recriou uma cena parecida do ponto de vista de um astronauta, a cena era bem produzida... mas apenas mais do mesmo. O que impressiona em Bioshock Infinite é que esses momentos agora não apenas escapam da tradicional fórmula que os games aprenderam para derrubar nossos queixos... mas também porque lida com questões polêmicas, profundamente arraigadas na ambientação politicamente incorreta de 1912. O preconceito racial, xenofobia, críticas ao movimento trabalhista – tudo isso é amarrado com a adoração aos fundadores dos Estados Unidos em uma azeda crítica anacrônica. Apesar dessa crítica não ser das mais sutis ou melhor estruturadas, Levine merece ser aplaudido de pé por colocar temas polêmicos e fazer as pessoas pensarem sobre assuntos que certamente desagradarão a algumas pessoas. A beleza está em tentar fazer um jogo sem tentar agradar a gregos e troianos.

Steampunk ganha um novo significado em 1912 - espere para ouvir o impacto na trilha sonora

Steampunk ganha um novo significado em 1912 - espere para ouvir o impacto na trilha sonora

Não é difícil criticar Bioshock Infinite. O jogo tem falhas técnicas e sua narrativa reutiliza alguns dos recursos que irritaram muitos fãs do seriado Lost. Muitos elementos mostrados em trailers nos últimos dois anos foram removidos ou modificados. Sendo analisados separadamente, esses elementos decepcionam – mas dentro do conjunto eles se provam menos importantes do que soam. Assim como a primeira sequência de Bioshock, com a queda do avião, a chegada ao farol e os primeiros passos em Rapture, a jornada de DeWitt é mais uma experiência sentida na pele do que um jogo a desafiar você. Mas isso não faz dele um Metal Gear Solid com suas longas cenas não-interativas, pelo contrário. Mesmo quando você é forçado a tomar decisões que parecem não afetar mais do que pequenas meras mudanças estéticas, a trama de Infinite garante que você sinta emocionalmente o peso de suas escolhas. É quase irônico que a indústria passou a última década tentando dar peso para suas escolhas em jogos como Black & White, Fable e Mass Effect... e um game no qual elas não afetam a jogabilidade acabam dando muito mais profundidade a essas escolhas em um nível pessoal e praticamente poético.

Você não deveria jogar ou deixar de jogar Bioshock Infinite por seus defeitos e qualidades de produção – certamente existem muitos de ambos. Mas tanto fãs de games como amantes de uma boa narrativa devem jogar Bioshock Infinite por ser um dos videogames mais provocantes dos últimos anos, provando que é possível criar uma obra autoral nessa mídia atualmente criticada por sua falência criativa.

P.S.: Logo depois da revelação do jogo com o trailer do Handyman e das rosas flutuantes, eu me embarguei de ver qualquer coisa do jogo para evitar spoilers. Tendo terminado o jogo, vi os 15 minutos de gameplay exibidos durante a E3 2011 (link aqui). Qual não foi minha surpresa ao ver um jogo completamente diferente do final. Fui pesquisar e descobri que o jogo sofreu uma enorme revisão, sendo desmontado e remontado um ano antes do lançamento - e que a trama foi completamente reescrita seis meses antes do lançamento, além de uma mudança radical no final no começo do ano. É incrível que, apesar de um certo escorregão de ritmo entre o segundo e terceiro ato (que indiretamente cria um efeito narrativo interessante), seria difícil imaginar que a história foi alterada em uma vírgula sequer. Isso não apenas confirma a habilidade da equipe da Irrational, mas mostra que esse tipo de risco criativo pode realmente valer a pena - Portal 2 também teve sua trama grandemente revisada durante a produção.

Ficha técnica
Bioshock Infinite
Plataformas: PlayStation 3, Xbox 360, PC
Desenvolvedor: Irrational Games
Publisher: 2K Games

Esta postagem também está disponível em: Inglês

Author, freelance videogame journalist, cinematography major and a little insane.

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